Governador destaca exemplos do ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela, homenageado no evento, e de Tiradentes na defesa da igualdade de direitos

 

A defesa da luta incessante pela liberdade, pela justiça social, a democracia e a igualdade de direitos marcaram o discurso do governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, nesta sexta-feira (21/04), durante a solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência em Ouro Preto, Território Metropolitano. A cerimônia teve como principal homenageado, in memoriam, o ex-presidente da África do Sul, Nelson Mandela. Pimentel destacou os exemplos de Mandela e Tiradentes como dois dos principais líderes a serem seguidos para “superar as dificuldades e os impasses surgidos na sociedade”.

“Estamos hoje aqui reunidos para celebrar a memória de dois homens, dois heróis, dois símbolos.  Tiradentes, nosso patrono, e Nelson Mandela, nosso homenageado. Ambos são personagens que permanecem no Panteão da História representando o ideal mais sublime da cidadania, o valor mais sagrado de qualquer Nação: a liberdade”, disse.

O governador afirmou ser dever histórico relembrar o suplício a que Tiradentes foi submetido em 21 de abril de 1789, assim como os 27 anos de prisão arbitrária e injusta impostos à Nelson Mandela.

“Nesta marcha tormentosa do século 21, vamos encontrar, na personalidade singular de Nelson Mandela, uma referência que, trazendo o drama existencial de Tiradentes para o nosso tempo, sintetiza a saga daqueles que lutam pela dignidade humana e se sacrificam pela liberdade e pela paz”.

 

Ações espetaculosas

Pimentel destacou que o conflito entre o ódio e a tolerância, o preconceito e a solidariedade, o absurdo e a lucidez “parece hoje enredar o mundo e o nosso país numa discórdia sem fim”.

“Basta olhar em torno, no ambiente próximo ou no mais distante para ver, por toda parte, sinais de opressão e violência, radicalismo e confronto.  Desrespeito aos direitos individuais, às garantias legalmente consolidadas, aos mais básicos preceitos da convivência humana, tudo isso vai se tornando corriqueiro nos tempos que vivemos. Falo do angustiante drama dos refugiados de guerra, da migração forçada de milhares de seres humanos afetados pela crise econômica, do desemprego cruel, da miséria e da fome injustificáveis num mundo capaz de produzir abundância e distribuir escassez. Mas falo também das perseguições políticas, religiosas, ou raciais, muitas delas respaldadas por processos claramente parciais, onde a violência e o desrespeito se ocultam atrás de ações espetaculosas, nas quais a intenção de justiçamento e não de justiça fica cada dia mais evidente”.

Segundo o governador, podemos encontrar na personalidade de Nelson Mandela, uma referência que, trazendo o drama existencial de Tiradentes para o nosso tempo, sintetiza a saga daqueles que lutam pela dignidade humana e se sacrificam pela liberdade e pela paz.

“É em meio às brumas do presente que devemos buscar as luzes do futuro. O País dos Inconfidentes não escapa aos ventos devastadores da crise que abre o milênio. A lição de Mandela, como a do grande Alferes, vem do sofrimento desumano a ele imposto. A vitória ainda em vida conquistada pelo líder africano, ao término da longa jornada de perseguição, é um privilégio que o nosso mártir Tiradentes não alcançou. Mas de ambos recebemos a palavra de fé e perseverança em pleno martírio. O exemplo de firmeza e cautela, altivez e resistência”, ressaltou.

O tempo, agora, segundo Pimentel, pede reconstrução. “Aspiramos a liberdade e almejamos a justiça, hoje solapadas por uma teia de acusações que lembram as alcovas da Conjuração Mineira. Naquele episódio fundante da nossa nacionalidade, Tiradentes foi protagonista involuntário de um espetáculo e não de um processo justo. Foi protagonista da busca ardilosa de uma expiação calculada, feita mais para encobrir do que para revelar, feita mais para distrair a razão do que para iluminá-la, feita, enfim, para condenar previamente e não para buscar a verdade”.

 

Justiça

Pimentel relembrou a Inconfidência Mineira para exaltar a importância de um “sistema jurídico perfeito”, para evitar danos irreparáveis. “As acusações, quando a serviço de estratagemas, morrem. Os acusadores morrem. Mas a injustiça contra as vítimas da acusação infundada, essa é incontornável e irreparável. Por isso, o devido processo penal não pode ser atropelado pela ansiedade do condenar, de execrar, de justiçar. Um sistema jurídico perfeito não é aquele que se alimenta do estardalhaço. É aquele que silenciosamente não teme encarar os fatos e buscar as provas – e não apenas as versões – e constrói as decisões com serenidade e isenção. Quando uma sociedade se rende aos clamores de vingança, ela se rebaixa, deixa de ser republicana e democrática e retrocede ao estágio mais primitivo da trajetória humana. Urge pois defender a democracia e os valores republicanos. Democracia e república que se fundam na igualdade de direitos, na transparência e na supressão do ódio. Que têm a tolerância e a convivência com as diferenças como princípios éticos e prática política, tal como pregou Mandela”, defendeu.

Por fim, o governador ressaltou o trabalho e o compromisso de Minas Gerais com a paz e a fraternidade, manifestado no equilíbrio entre os Poderes do Estado e na convergência de vontades em favor da concórdia e do combate aos efeitos da crise.

“Sem isso, não temos como ir adiante na luta pelos direitos da cidadã e do cidadão atingidos pela recessão econômica, pelas tensões sociais e pela fragilização do sistema político. Unimos as forças vitais dos mineiros e das mineiras na direção do soerguimento do nosso Estado e do nosso País. Aqui estão os Poderes Legislativo, Judiciário e Executivo, ciosos de sua autonomia e de seus deveres, mas irmanados na busca do bem comum. Se a crise parece envolver tudo, devemos encontrar, no meio dela, a força necessária para combater a inércia e o desencanto, as frustrações e desesperanças. Há governos que dizem fazer muito, porém fazem para poucos. Hoje, em Minas Gerais, o que fazemos busca beneficiar sempre o maior contingente de mineiros e mineiras. Sabemos que as soluções exigem adesão visceral aos princípios basilares da justiça, da democracia, da igualdade e da paz. A prática da tolerância anima o nosso espírito e promove a comunhão da diversidade”, finalizou.

 

Homenagem

O Grande Colar entregue, in memoriam, a Nelson Mandela, foi recebido pelo embaixador da África do Sul no Brasil, Ntshikiwane Joseph Mashimbye, que também enalteceu o espírito de liberdade defendido pelo ex-presidente africano e por Tiradentes.

“Tiradentes, durante sua vida, tornou-se o pioneiro do que hoje é conhecido como a República Federativa do Brasil. Agora, em sua morte, ele é a inspiração para a liberdade, justiça, igualdade e dignidade humana. Assim devemos nos tambem proceder. A ocasião de hoje nos dá a oportunidade de lembrar a nós mesmos que todos nós temos dentro de nós a possibilidade de viver de acordo com seu legado”, afirmou.