Motoristas de transportadoras admitem apoio de donos de empresas para manter paralisação e bloqueio de estradas

locaute caminhoneiros maio 2018

Caminhões-tanque para abastecimento de serviços básicos, como hospitais, foram escoltados pela PM na Região Metropolitana de BH(foto: BETO NOVAES/EM/D.A Press)

Motoristas de empresas de transporte confirmaram ontem que a orientação de seus patrões é que permaneçam onde estão até que o movimento paredista chegue ao fim. Na sexta-feira, o caminhoneiro paulista Hélio Piancó, disse que seu patrão, de São Paulo, orientou que permanecesse parado. “Ele disse que se não houver redução de impostos e preços, ele fechará a empresa”. Piancó contou que percorreu 3.500 quilômetros trazendo carga de Fortaleza para Belo Horizonte, onde descarregou no domingo e aderiu ao movimento na segunda feira. Segundo o motorista, o preço do frete foi de R$ 3.500. Ele recebeu R$ 3 mil de adiantamento ao sair de São Paulo. “Cheguei em BH com R$ 30 no bolso com a carga de embalagens trazida de Fortaleza”, conta.

 

Alguns motoristas, que pediram para não serem identificados, apontaram uma carreta, parada no trevo de acesso à Refinaria Gabriel Passos (Regap), como sendo de uma empresa de grande porte de ônibus de viagens interestaduais. Segundo eles, a carreta fica parada no local, mas há revezamento de motoristas. Eles confirmaram que algumas empresas adotaram esses procedimentos ao longo da rodovia.

Um grupo de cinco caminhoneiros gaúchos que está parado desde a madrugada de domingo passado em um posto de combustíveis às margens da BR-381, em Betim, disseram que a empresa, que fica no Rio Grande do Sul, não se manifestou sobre o posicionamento deles. “Resolvemos aderir ao movimento por conta própria, mas não houve qualquer pressão de nossos patrões para que voltemos à estrada”, relatou o motorista Vanderlei Vargas. As carretas estão carregadas de vergalhões.

Giovani Cristiano, que carrega carga com produtos de tratamento de água para uma empresa prestadora de serviços de saneamento, também disse que não recebeu qualquer determinação de seus empregadores para que voltasse ao trabalho. Ele disse apoiar “totalmente” o movimento e que assim permanecerá até que se chegue a um acordo com a categoria. Ontem, ele participava com outros colegas de um churrasco com produtos doados por apoiadores.

Na tarde de sexta-feira, o chefe do Núcleo de Policiamento e Fiscalização da Polícia Rodoviária Federal (PRF) em Minas, Alexandre Pinheiro, disse que a PRF garantiria a saída daqueles que manifestassem o desejo de retirada do movimento. Mas, até a tarde de ontem, nenhum motorista pediu o apoio da força policial para seguir na estrada.

Mesmo com o anúncio de que a força de segurança federal se dirigia a BR-381 em direção a São Paulo, o sábado foi tranquilo nas imediações da Refinaria Gabriel Passos, em Betim. Alguns comboios de tanques foram escoltados pela Polícia Militar, mas não houve qualquer tentativa de impedimento pelos manifestantes. Eles disseram se tratar de combustíveis destinados ao abastecimento de serviços básicos como hospitais, viaturas, ambulâncias entre outros.

O anúncio do presidente da República sobre a aplicação de multas de até R$ 100 mil para quem estiver parado nas rodovias foi recebido com um misto de deboche e revolta. Pedro Gonçalves Braga, com 30 anos de estrada, morador de BH, desdenhou da ameaça: “Não sei de onde tiraríamos esse dinheiro. Aí que vamos ficar parados mesmo”. Ele e o amigo Wellington Lopes, de Contagem, disseram estar no local em solidariedade aos colegas.

APOIAM 

A solidariedade da população vem marcando os protestos. Em grupos ou individualmente, moradores das imediações onde há pontos de concentração levam alimentos, água e até agasalhos. Churrascos, marmitas, frutas, refrigerantes e sucos chegavam a todo momento. Grupos de ciclistas, de motoristas de vans, que aderiram ao movimento, de motoristas de coletivos e motociclistas também se juntaram aos manifestantes.

Um grupo de motoristas de caminhões de combustível se divertia em torno do violão tocado pelo caminhoneiro Eder Cavalcanti. De acordo com o grupo, estão parados, sem abastecer os tanques de transporte desde terça-feira e não receberam qualquer notificação de seus empregadores. Eles garantiram que as “ameaças oficiais” não provocaram nenhum impacto no movimento. “O movimento não é só nosso é de todo o Brasil, haja vista o apoio que estamos recebendo de todos os setores do Brasil”.

NEVES 

O caminhoneiro R. C., da transportadora Reiter, não estava envolvido diretamente nos atos que fecharam a BR-040, na altura do Km 517, em Ribeirão das Neves, na Grande BH, mas cruzou os braços e se juntou a dezenas de outros que estavam na mesma situação. Ele disse que, até amanhã, não voltará a circular. “Recebemos telefonema da firma que disse que até segunda não devemos nos mexer do lugar”, disse.

Segundo ele, o anúncio do governo para zerar a Contribuição de Intervenção do Domínio Econômico (Cide) sobre o diesel não atende as expectativas da categoria. “Queremos que o preço do diesel esteja próximo ao preço cobrado em países vizinhos ao Brasil”, afirmou. De acordo com o site Global Petrol Prices, que monitora os preços de combustíveis no mundo, o diesel era vendido a R$ 4,28, em 21 de maio, no Brasil. Na lista considerando 11 países sul-americanos o litro do diesel brasieiro é o segundo mais caro, atrás do Uruguai (R$ 5,91). Na Argentina, o litro é (R$ 4,14).

Apoio até de criminosos no Rio

Além de caminhoneiros em Minas, colegas do Rio de Janeiro confirmaram estar recebendo apoio dos patrões com dinheiro e comida. Na Rodovia Presidente Dutra, na altura de Seropédica, na Baixada Fluminense, há grande aglomeração de caminhões parados no acostamento. “Se não fosse o apoio do patrão, poucos estariam aqui”, disse Evandro, que conta ser caminhoneiro há 15 anos. As quentinhas de comida são vendidas por R$ 10 e disputadas entre os motoristas em greve. Muitos contam que precisam também da ajuda de moradores da região para se alimentarem.

Na sexta-feira, segundo informou um grupo de caminhoneiros, quem ajudou a “tirar a barriga da miséria” foram criminosos. “Até os milicianos trouxeram pão com mortadela pra ajudar a gente. Foi a minha sorte, porque não consegui comprar comida porque meu dinheiro acabou”, afirmou Roberto, caminhoneiro há mais de 40 anos.

Ele informou que o patrão deposita o dinheiro em sua conta para que se manter durante os dias de paralisação, mas ele não conseguiu sacar o valor. Roberto, ao contrário de colegas, negou que a greve seja manipulada pelos patrões, mas revelou que tem recebido total apoio do dono da empresa em que trabalha.







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