Para a meninada não existe programa melhor do que passar as férias na casa das vovós que gostam de paparicar netos, quando ao lado desta casa mora um monte de tias aí a coisa fica mais gostosa.
Então é festa pura!
Bolinhos, doces, biscoitos, e o barulho da primaiada que se reúne para brincadeiras diversas que só terminam quando já se faz noite alta.
Terminada a brincadeira, dormir cedo nem pensar, é preciso contar tudo que acontece na cidade de cada um, para que todos possam ficar por dentro das novidades, tudo dito, é hora de dormir para levantar cedo porque o dia seguinte será longo.
Andar a cavalo, nadar, subir em árvores, procurar toca de coelho, chupar fruta no pé, assustar o gato, correr atrás das galinhas, fazer carinho no cachorro e ficar olhando o pintinho sair do ovo.
Eram tantas crianças que mal dava para guardar o nome ou o apelido de cada um.
Pedro, Paulo, Karine, Jussara, Bárbara, Cleiton, Rafael, Marcus e muitos outros.
A fazenda ganhava vida nova em todas as férias, pois era a ocasião que os primos tinham para esquecer a vida atrás dos muros ou a prisão dos apartamentos, e correr em liberdade.
Não dá para dizer qual é o mais peralta, e como em todo grupo alguém sempre se destaca, a dupla, Pedro e Paulo era considerada a mais traquina.
Eles não perderam tempo e trataram mais do que depressa de confirmar a fama.
Levantaram bem cedo, tomaram café e saíram com a turma que por alguns dias iriam esquecer os videogames e as lan-houses que aprisionam a infância.
Depois de um mergulho gostoso no riacho de águas cristalinas, deram uma passada pelo galinheiro e aproveitando que as donas da casa estavam ciscando pelo quintal, destruíram alguns ninhos, quebraram alguns ovos e quando o galo se aproximou, o fizeram baixar a crista e o puseram para correr.
Davam sonoras gargalhadas.
Tremeram de susto quando uma voz ecoou no fundo do galinheiro.
O que pensam que estão fazendo?
Por acaso isto é brincadeira?
E ainda tem coragem de darem gargalhadas!
Quem vocês pensam que são?
Acham que podem vir aqui expulsar o dono da casa e assustar nossos meninos, achando que isto é diversão?
Os dois tremiam como vara verde.
- Pergunta quem é, disse Paulo.
- Pergunta você retrucou Pedro?
Antes que dupla batesse em retirada, uma galinha bem gorda pulou do seu ninho e se colocou bem à frente dos dois.
Uma galinha!
Ficaram tão espantados e com medo que saíram em disparada e foram se aconchegar na cozinha da avó, que não deixou por menos: o que vocês aprontaram? Tenho certeza que fizeram mais uma de suas diabruras.
-Que nada vó, não fizemos nada, é que apostamos uma corrida para ver quem chegava primeiro, tem bolo aí?
-E agora Pedro, o que vamos fazer?
-Sei lá respondeu Paulo, vamos contar para todo mundo.
-Ficou maluco?
-Quem vai acreditar em galinha que fala? Vão pensar que somos malucos e que ficamos doidinhos.
-É verdade, e então?
-Então o quê?
Ficaram em silencio por alguns instantes e decidiram não contar nada para ninguém e brincaram o resto do dia, como se nada tivesse acontecido.
Praticamente não conseguiram dormir, e no outro dia foram bem cedinho para o galinheiro, e desta vez entraram bem devagarzinho e em silencio.
-Bom dia, muito bem, hoje vocês estão se comportando como dois homenzinhos, disse a galinha.
-Fala Pedro!
-Falar o quê?
-Responda você.
-Ta bom!
-Queremos pedir desculpas por tudo que fizemos e também por sairmos correndo daquela maneira, também, a gente não sabia que galinha falava e muito mais com a gente.
-Vocês são os primeiros, eu nunca conversei com nenhuma pessoa desta fazenda.
-Porque resolveu conversar justamente com nós, perguntou Pedro?
-É que vocês são uns garotos espertos e sem perceber, as suas peraltices estavam colocando em desordem o nosso galinheiro. Foi preciso falar para que pudessem perceber que não é certo o que estavam fazendo. Os nossos pintinhos ficaram muitos assustados e se o galo quisesse poderia ter machucado vocês com suas afiadas esporas.
-Podemos chamar os outros e contar para todo mundo que você fala?
-De maneira alguma, se descobrem, vão querer me levar para um circo, para uma praça, e com certeza irão arranjar um jeito de ganhar dinheiro, me obrigando a falar vinte e quatro horas por dia. Este é um segredo nosso mesmo porque, se disserem para outras pessoas e alguém chegar aqui querendo me ouvir, vou ficar muda como sempre fiquei, agora, que é legal conversar com crianças, isto é.
-Podemos vir todos os dias para conversar?
-Claro, adoro contar historias, quando voltarem contarei uma bem bonita.
-Então está certo, não vamos contar para ninguém e todos os dias viremos para saber das novidades.
 
Por Geraldo Ribeiro:
"Tenho 65 anos, nasci e moro em Betim - Minas Gerais- Brasil. Premiado em 1990 no Concurso Literário PROJETO BATEIA da Prefeitura de Betim. Co-autor das Coletâneas: TRAÇOS E COMPASSOS, VERSEJA BRASIL, POESIA EM MOVIMENTO . Escrevo simplesmente por prazer e para denunciar a Injustiça Social que ainda causa a pobreza do nosso povo.Sou casado com Patrícia com quem tenho 03 filhos."