Empresas estariam por trás da greve. ‘Temos indícios de que existe acordo entre autônomos, distribuidoras e transportadoras’, disse Jungmann.

A continuidade da paralisação dos caminhoneiros alimentou, dentro do governo, uma suspeita que começou tímida. A de que o que está havendo é um locaute. Ou seja: empresas transportadoras estariam por trás dessa greve.

Em qualquer estrada, a carga mais pesada que o caminhoneiro carrega é a carga de trabalho.

A lei do caminhoneiro, de 2015, prevê que, se houver acordo coletivo, a jornada de trabalho pode chegar a 12 horas por dia, ou 72 horas semanais.

Mas a lei prevê muitas exceções, como a autorização para prolongar a jornada até o veículo chegar a um local seguro ou ao destino final.

Segundo especialistas, na prática, isso cria uma jornada ilimitada.

“Caminhoneiro vive num regime análogo de escravo, trabalha em média 200 dias por ano fora de casa, dorme numa cabine minúscula, com um olho aberto e outro fechado, porque corre risco do assalto. Então, é nesse grau de tensão, nas estradas precárias do Brasil, que esse profissional trabalha, e cada vez com menos condições de sobreviver”, disse Rodolfo Rizzotto, coordenador do SOS Estradas.

Um estudo da USP divulgado em fevereiro comprova a dificuldade de viver na estrada: 58% dos caminhoneiros trabalham com carteira assinada; 27% são autônomos, ou seja, percorrem as estradas dirigindo o próprio caminhão; 15% têm outros tipos de contrato; 43% trabalham mais do que as 44 horas semanais previstas em lei; 85% ganham entre um e três salários mínimos.

Segundo números bem recentes, de abril, os caminhões transportam mais de 60% da carga do país. Por isso, quando param, os caminhoneiros causam tanto impacto. Mas quando voltam a rodar, nem sempre têm os benefícios que esperam.

“Isso vai favorecer quem explora mão de obra, porque essa redução de custo de pedágio e de diesel, não vai ser repassada para o caminhoneiro, para aquele que está transportando, e nem vão aumentar a remuneração do trabalhador”, disse Rodolfo.

As transportadoras também sofrem com a alta do diesel. E várias reivindicações apresentadas na quinta-feira (24), em Brasília, tem como consequência a redução dos custos de transporte. Por isso, o governo suspeita que muitos dos caminhoneiros parados estejam seguindo ordens dos patrões. Seria o chamado locaute, que é proibido por lei.

“Eu diria que nós temos indícios de que existe uma aliança, um acordo entre caminhoneiros autônomos, distribuidoras e transportadoras. Eu digo isso porque eles têm adotado posições comuns”, afirmou o ministro da Segurança Pública, Raul Jungmann.

Vicente Reis, um dos representantes dos caminhoneiros autônomos, negou que o movimento esteja ligado aos patrões.

“Eu diria para o ministro vir para a rua então e fazer uma pesquisa mais a fundo sobre isso. Nós somos caminhoneiros autônomos, não temos nenhum tipo de patronato, não temos sindicato, seria bom para o ministro verificar pessoalmente”, disse.

Um vídeo foi gravado pelo prefeito da cidade mineira de Betim, Vittorio Medioli. Ele declara o apoio a greve. Seria apenas uma declaração política, se o prefeito não fosse também empresário do setor de transportes.

“O governo tem que entender, se não entende com as boas, tem que entender com uma paralisação como esta, o que tem que ser feito, os transtornos que estão acontecendo vão fazer cair a ficha nessas pessoas que não têm inteligência, não conhecem o que é a vida competitiva, não conhecem o que é sustentar uma empresa, uma atividade econômica”, disse Medioli.

Um caminhoneiro parado na Rodovia Régis Bittencourt disse que estava cumprindo determinação da empresa.

“No momento em que eu cheguei no bloqueio eu comuniquei a empresa também e eles me passaram que eu ficasse parado. A orientação foi para parar, esperar o resultado do movimento e sair só depois que acabar”.

O Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, abriu nesta sexta-feira (25), um procedimento para apurar as condutas irregulares na greve. As multas podem chegar a R$ 2 bilhões.

 

 

 


Jornal Nacional/G1